Por Dr. André Mansinho, Investigador de Cancro da Próstata, no Oncology Translational Laboratory, da Fundação GIMM - Gulbenkian Institute for Molecular Medicine.
O desafio do MCRPC: quando o Cancro da Próstata resiste
Quando um homem é diagnosticado com Cancro da Próstata, o nosso maior receio é a progressão para a fase metastática resistente à castração, ou mCRPC. Nesta fase, a doença deixa de responder ao tratamento hormonal e surgem frequentemente metástases ósseas, responsáveis por uma perda significativa de mobilidade. É neste momento que o verdadeiro desafio clínico começa.
Medicina de precisão: vitórias e reavaliações
No âmbito da investigação clínica, temos também trabalho desenvolvido na medicina de precisão, a ideia de atacar as fraquezas únicas de cada tumor.
Tivemos a sorte de participar no ensaio AMPLITUDE, onde constatamos que, em doentes com a mutação certa (como BRCA), um inibidor PARP pode atrasar a progressão da doença. Foi um sucesso claro, mas a ciência raramente é assim tão linear. Mas nem todos os estudos têm resultados positivos... Participámos também no ensaio IPATential-150, onde o alvo parecia óbvio (a via AKT), mas o fármaco testado não aumentou a sobrevivência.
Estes resultados mostraram que a investigação é feita de avanços e reavaliações constantes: um passo em frente com o AMPLITUDE, e uma reavaliação com o IPATential-150. Aprendemos tanto com os fracassos, como com as vitórias.
Ao mesmo tempo, em muitas outras áreas da oncologia, surge uma via emergente: a revolução da imunoterapia. Contudo, o Cancro da Próstata apresenta desafios únicos por ser pouco infiltrado por células do sistema imunitário e sabe esconder-se bem.
Verificámos isso no ensaio VIABLE, onde tentar estimular o sistema imunitário com vacina de células dendríticas simplesmente não resultou. Atualmente, decorre um novo ensaio com uma abordagem diferente: em vez de treinar o sistema imune, procuramos forçá-lo a agir.
AMG 509: uma nova ponte para a esperança
Estamos a testar o AMG 509 (Xaluritamig), uma tecnologia inovadora chamada BiTE (Bispecific T-cell Engager), que funciona como uma ponte humana: agarra fisicamente o nosso soldado imunitário e acorrenta-o à célula do cancro. Este mecanismo força o sistema imunitário a atacar diretamente o cancro, e os primeiros resultados são promissores, mesmo em doentes que já tentaram tudo.
Uma maratona de persistência
Quando olho para trás, a jornada desde o RAMBO-223 até ao AMG 509, vejo que a ciência não é um "momento eureka". É uma maratona de persistência. Cada estudo, cada doente, cada sucesso e cada beco sem saída, representa um passo em frente.
O nosso objetivo não mudou desde o primeiro dia. Usar o conhecimento adquirido para oferecer mais tempo e melhor qualidade de vida aos homens e às famílias que enfrentam esta doença.